Pelo fim dos restaurantes naturais

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abril 29, 2009 em Colunas por Rafael-Jacobsen

por Rafael Bán Jacobsen

Em breve, será inaugurada uma nova churrascaria aqui perto de casa. Vi, no alto do prédio em fase final de reformas, o vistoso letreiro – Churrascaria Freio de Ouro – e, nesse momento, dei graças aos céus. Podia ser pior. Podia ser bem pior: poderiam estar prestes a inaugurar, logo ali, a poucas quadras de casa, mais um restaurante natural.

Sei que muitos vegetarianos ficariam felizes com um restaurante natural nas cercanias do seu lar. Eu não. Prefiro mil vezes a Churrascaria Freio de Ouro, com seu impiedoso crematório de animais destroçados. A razão é simples: as churrascarias são assim mesmo, crueis, antiéticas, imundas – enfim, cheias de personalidade própria. Já os tais restaurantes naturais não possuem personalidade alguma, o que, para mim, é imperdoável.

A tal designação “natural” é tão escancarada e indecentemente ampla que, na prática, não quer dizer coisa nenhuma. O pobre comensal nunca sabe o que vai encontrar em um autoproclamado restaurante natural. Eu, por exemplo, já estive em restaurantes naturais que servem apenas alimentos orgânicos, mas estive também em tantos outros sem tal preocupação. Já estive em alguns em que se pode encontrar açúcar de todos os tipos (até aquele bem branquinho, bem refinadinho), outros em que só o açúcar mascavo é tolerado e mais alguns em que até pensar em açúcar, de qualquer tipo, cor ou aparência, é pecado mortal. Conheci restaurantes naturais que não servem carne em hipótese alguma, muito embora ofereçam gelatina tradicional de sobremesa, mas conheci vários em que a carne tem passe-livre, especialmente a tal da carne branca – grelhadinha, é claro! Alguns oferecem café após a refeição; outros, apenas cevada; vários, só um chazinho verde bem aguado – e vá lá! É um verdadeiro samba do crioulo doido. Quando vou a um restaurante natural, nunca sei se vou passar fome ou se vou comer feito um nababo. Em contrapartida, caso eu fosse visitar a Churrascaria Freio de Ouro (ou qualquer outra), eu não teria dúvida alguma a respeito do que lá encontraria: vários garçons carregando espetos com músculos decepados e queimados, ainda pingando sangue, aquele cheiro nauseabundo e típico de Auschwitz no ar, e, para minha refeição, teria de me contentar com a famigerada saladinha: alface, tomate, cenoura ralada, beterraba em rodelas (isso porque as demais saladas, mais elaboradas, certamente seriam regadas a maionese, iogurte, ovo cozido, mozarela de búfala, blanquet de peru e tiras de presunto). Uma bela joça, mas uma joça honesta.

Como veem, ando particularmente irritado com os tais restaurantes naturais. Aliás, para se dar conta de quão esdrúxula e sem sentido é essa designação, basta pensar no que seria o antônimo de um restaurante natural – um “restaurante artificial”, quem sabe? Pois eu não conheço nenhum estabelecimento que sirva refeições preparadas única e exclusivamente a partir de ingredientes artificiais, sintéticos ou coisa que o valha. E, a bem da verdade, carne é natural, ainda mais se for carne de galinha caipira, criada bucolicamente, sem hormônios, ou se for carne do tal “boi verde”, criado solto e tratado com homeopatia. Repito: restaurantes naturais não têm a mínima personalidade.

Penso que optar pela designação “natural” é, na maioria dos casos, uma escolha pautada pelo medo de assumir uma postura bem definida. Muitos proprietários preferem rotular seus estabelecimentos como “naturais” do que como “vegetarianos”, por exemplo, com medo de soarem radicais. Prova disso é o slogan de um novo restaurante natural que foi inaugurado há pouco aqui em Porto Alegre (bem longe de casa, graças a Deus): Natural sem ser radical. Quando vi o letreiro, tive vontade de apedrejá-lo. E, pelo que me contaram, tem bastante carne no bufê. Nem um pouquinho radical, de fato. Já me convidaram diversas vezes para ir almoçar lá, porque a comida é “bár-ba-ra!”, mas eu não fui. Não fui e não vou. Se dependesse de mim, esse restaurante iria à falência, junto com todos outros restaurantes naturais.

Esconder a filosofia vegetariana por trás da fachada “natural” é um crime hediondo, é uma atitude que ajuda a relegar o vegetarianismo a um status de submundo, contribuindo apenas para aprisionar os vegetarianos em guetos (se não guetos físicos, palpáveis, pelo menos guetos ideológicos). A palavra “vegetariano” precisa ser vista e ouvida pela sociedade, e cada vez mais – só assim deixará de soar tão estranha ao cidadão médio quanto soa cantar Babalu em grego.

Outras vezes, o restaurante não é vegetariano mesmo, e a carne comparece no cardápio, pois a elaboração do menu, nesses casos, não é guiada por qualquer escrúpulo ético com respeito aos animais não-humanos. Pelo contrário: a única preocupação é com os animais humanos e sua saúde. Esses restaurantes, então, tornam-se pontos de encontro de mocinhas preocupadas com a balança e de dondocas que desejam se alimentar de maneira mais “light”. Nada mais egoísta. Até mesmo a Churrascaria Freio de Ouro é menos falsa nesse aspecto: as pessoas vão até lá para comer animais assassinados e têm consciência de que, com isso, estarão se recheando de gordura saturada, entupindo as próprias artérias, estourando a taxa de ácido úrico no sangue. Toma lá, dá cá. Já a mocinha ou a madame que, no restaurante natural, comem franguinho grelhado com salada e gelatina diet não têm essa mesma decência de sacrificar a saúde em troca dos duvidosos “prazeres da carne”. É uma imoralidade.

Seja como for, os tais restaurantes naturais sempre me parecem hipócritas. Em maior ou menor grau. Que fechem todos. Não vou sentir a menor falta.

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