Pode ou Não Pode?
[►Enviar para um amigo]janeiro 27, 2010 em Colunas por Bruno-Mller
por Bruno Müller
Essa é uma discussão que frequentemente emerge quando o tema é veganismo: trata-se de uma lista de interditos ou de uma forma de abstinência? É como o leigo, na conversa, manifestar sua curiosidade através de uma lista de perguntas: “e mel, pode?”; “e lã, pode?”; “e leite, por que não pode?”.
Nós, veganos ficamos revoltadíssimos: dizemos que veganismo não é uma questão de “não pode”. Não é um enunciado de tabus alimentares, códigos de vestimenta ou mandamentos sentimentais. O veganismo, dizemos com orgulho, é uma questão de consciência, uma opção individual de não contribuir com a exploração, o sofrimento e a morte dos animais. Certo?
Errado! O veganismo não é uma opção de vida. É um imperativo ético. Um dever. Se é um dever, é uma regra. Uma regra obrigatória. E obrigatória para todos. Senão, seria uma regra arbitrária e, consequentemente, sem sentido.
Eu sei, eu sei. Vão dizer que é antipático, que é fanatismo, que é autoritário. O que eu posso responder?
É antipático? Eu entendo que comanda a boa regra de convivência (e de convencimento) que, seja na vida social, seja naquele tempo que doamos de nossa vida para divulgar nossas idéias, a simpatia é um preceito básico a ser seguido. Se abordamos uma pessoa com agressividade, ela se põe na defensiva e fica menos disposta a ouvir, refletir, entender e, quem sabe, se deixar convencer. Mas até onde podemos ir sem que a simpatia se transforme em condescendência? Aí reside a verdadeira arte da argumentação.
Mas desconfio que haja algo mais obscuro nesse discurso. Fazer do veganismo uma “opção individual” torna a prática ainda mais nobre: enquanto todos os outros se entregam aos prazeres da carne, nós nos abstemos estoicamente. Por consciência. É uma “filosofia de vida”: que chique! É uma bela forma de angariar simpatia, eu admito. Mas não é honesto.
A verdade é que ser simpático nem sempre é uma qualidade. A simpatia pode ser também uma bela forma de não se comprometer: sob o manto do altruísmo e maturidade, ela pode esconder o egoísmo e o incontrolável desejo de ser aceito. Eu sei bem disso: eu me esforcei para ser simpático por 20 anos. E nunca consegui convencer uma só pessoa de que não devemos comer animais. Foi necessário uma boa dose de antipatia para conseguir despertar algumas consciências. Antipatia que cultivo com cuidado, desde então, inclusive vigiando meus impulsos à simpatia, impulsos a trocar honestidade por sociabilidade.
E a verdade é que, para ser “antipático”, não precisa ser antissocial. Nem ser agressivo. Muito menos apontar o dedo acusador. Basta convicção, bons argumentos e firmeza para não ceder ao relativismo. É tudo o que basta para te valer a alcunha de “antipático”. Que seja! Antes antipático que conivente. Hoje, antes de querer sem simpático, eu penso: quem não respeita minhas convicções não merece o meu respeito.
É fanatismo? Vamos pôr de outro modo: você qualificaria uma pessoa que condena a escravidão humana de fanática? É fanático alguém que se recusa a admitir a pedofilia? É fanatismo não aceitar, sob hipótese alguma, que seres humanos sejam confinados em campos de trabalhos forçados, de onde só sairão mortos, sendo exterminados aqueles que sobreviverem à fome e às epidemias? Pois é… Então porque o súbito laivo de relativismo quando vemos animais submetidos às mesmas condições de “vida”(uma vida assim definida só pode ser um tipo de subvida)? Ah, porque as pessoas não enxergam o sofrimento animal da mesma maneira. Para elas é normal. Elas não refletem sobre as conseqüências de suas atitudes. É cultural: elas cresceram nessa cultura em que é normal explorar animais, e têm dificuldades em abrir mão ou sequer questionar seus hábitos arraigados. Mas aí está precisamente o problema! Os maiores crimes contra a humanidade só foram possíveis devido ao silêncio conivente da maioria. Não é este o papel que devemos assumir se acreditamos que animais têm direitos, e não estamos apenas querendo ser “alternativos”.
O fanatismo também levanta a questão dos tabus. Tabus são impedimentos que ninguém sabe a origem, nem são acompanhados de uma justificativa. O tabu do incesto é o exemplo mais evidente. Mas existem outros: tabus alimentares em certas religiões; tabus sexuais, além do incesto, que variam muito de acordo com as culturas. Se você perguntar “por que?”, a resposta não será muito convincente: é feio; é a tradição; é o mandamento divino. Um tabu não precisa de justificativa porque ele não a possui. Não é o caso do veganismo: ele não é um tabu alimentar. Dizer que não se pode comer carne não significa que essa interdição não tem uma explicação lógica e racional que a justifique – e que deve ser apresentada no momento do debate. E isso faz toda a diferença, para sabermos distinguir entre o tabu e o imperativo ético, que é o que o veganismo é.
E o autoritarismo, a minha acusação predileta? Uma vez que você não concorda que seres humanos sejam confinados em campos de extermínio, você não pode chegar em praça pública e afirmar categoricamente que isso é errado? É errado você fazer tudo ao seu alcance para impedir essa prática? Não, não podemos transigir com a violência e a injustiça sob qualquer de suas formas. Isso não é apenas leviano, é igualmente e mais fundamentalmente imoral. Uma regra não é em si mesma autoritária. Ela o é quando é imposta com violência; quando é aplicada de forma arbitrária, isto é, desigual; ou quando não é acompanhada de uma justificativa razoável – não basta dizer “é por que é”, nem basta qualquer argumento: tem que ser um argumento razoável, ou seja, plausível, racional. E o argumento dos direitos animais é tão razoável quanto pode ser um argumento. Apesar da antipatia que isso gera no nosso mundo eivado de relativismo, eu digo sem medo: não existe argumento capaz de refutar a lógica e a ética por trás dos princípios dos direitos animais.
O consumo de produtos derivados de animais, ou testados em animais, viola uma regra moral fundamental, a do respeito à vida dos seres sencientes. Se essa regra não é reconhecida pela lei nem pelos costumes, isso não a torna inválida, nem torna a opinião predominante válida. Ou, como dizem alguns filósofos: 2 mais 2 é igual a 4, mesmo que a maioria não concorde.
É errado matar seres sencientes. Sendo errado, é uma regra moral. Se a maioria viola essa regra, isso não faz dela opcional. É um dever dos seres humanos respeitar a vida, a liberdade e a integridade dos demais animais. É uma imposição ética. Mesmo que a submissão a esta regra seja voluntária, do ponto de vista ético ela ainda é obrigatória. E o que nós lutamos é pelo dia em que ela não seja mais uma regra de adesão voluntária: lutamos pelo dia em que um ser humano não possa matar um animal, mesmo que ele não acredite no imperativo ético que o impede de fazê-lo. Da mesma forma que um ser humano não pode matar outro de sua espécie – e ninguém acha que esta regra é autoritária ou fruto de fanatismo. Por isso, se alguma pessoa me pergunta: “então não pode comer carne, leite, ovos, mel, nem usar couro, lã e seda, nem usar produtos testados em animais?”, eu respondo, resoluto: “É, não pode”. E sigo adiante, com a segurança dos meus argumentos.





O problema é que há uma divinização da natureza, por grande parte dos membros de nossa espécie. Vemos a natureza como se ela fosse imutável, mas a própria característica da natureza é a mutabilidade – claro, com suas devidas proporções. Alguns dizem que animais matam uns aos outros e a natureza demonstra isso todos os dias, mas a natureza demonstra tantas outras coisas…
Animais (humanos ou não) praticam infanticídio diariamente e isso é inclusive considerado, por alguns, como agente de equilíbrio no planeta. Outros diriam o mesmo sobre as Guerras, os caças… O abandono de idosos nas florestas também é uma atitude bastante natural entre vários povos, nem por isso consideramos correto imitá-los. Muitas coisas mudam. A natureza muda.
"Época: Na natureza animais comem outros animais.
Peter Singer: Isso não é um argumento. Na natureza, o homem domina a mulher, um homem escraviza o outro. Ninguém argumenta que essas coisas sejam certas."
"O gato brinca com uma batata e ninguém acredita realmente que matar o gato e fazer purê de batata sejam a mesma coisa. [...] Um gato não é o mesmo que uma batata porque o animal, com um sistema nervoso parecido com o nosso, tem emoções, relações familiares e, sobretudo, interesses básicos semelhantes aos do animal humano. Por isso, entrar em uma granja de criação intensiva ou em um matadouro imprime memórias amargas e provoca pesadelos em qualquer mente com um mínimo de sensibilidade – o que não ocorre, por exemplo, quando se vêem milhares de tomates reluzentes em uma área em que se pratica a agricultura intensiva hidropônica no estilo japonês.
Resumindo: Um gato não é o mesmo que uma batata porque ser vivo não é o mesmo que ser senciente. As únicas cadeias alimentares que existem hoje em dia são as cadeias de supermercados, então não dá para entender por que o humano, que vive num mundo tão antinatural como este que ele mesmo criou, ainda apela ao natural. [...]"
(Ana María Aboglio, em Seiva e Sangue: outras vidas, outras mortes)
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É interessante essa sua observação que muitas pessoas procuram "entender" o veganismo por meio de uma lista de proibições. Concordo que responder esse tipo de perguntas é bem irritante, mas acho que na maior parte das vezes, vegans respondem esse "é, não pode" sem muito fundamento para a proibição. Acho que muitas vezes, os movimentos em defesa dos animais falham em fundamentar ou discutir os fundamentos de suas práticas não convencionais e isso leva muitos não-veganos a lidar com as "proibições alimentares" veganas como se fossem uma lista de preceitos mais ou menos arbitrários. Gostaria, então, de chamar sua atenção para dois pontos em seu texto que são indicativos desse tipo de problema: 1. você, ao considerar veganismo um dever moral, você parte de uma concepção de ética que é no mínimo discutível. Essa concepção de imperativos morais está longe de ser unânime em ética, e vincular o veganismo a ela é um equívoco (Basta lembrar que os movimentos de defesa dos animais surgiram a partir de uma escola ética totalmente diferente – o utilitarismo.); 2. você menciona o respeito à vida de animais sencientes como justificativa para abolir o uso de produtos derivados de animais. Isso me parece um pouco problemático uma vez que nem todo produto de origem animal é obtido com desrespeito à vida desses animais (por exemplo a lã) e nem todo animal protegido pelas proibições de alguns vegans podem ser ditos sencientes a dor (por exemplo abelha e bicho de seda). Apesar dessas observações, gostei bastante do seu blog e acho que você faz um belo trabalho de divulgação do veganismo.
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Ótimo texto. Infelizmente é difícil mesmo com os argumentos convencer as pessoas. Eu mesma tive sucesso com poucas.
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Belo texto.
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Guilherme:
Acho que as respostas às suas indagações estão num texto que já escrevi, aliás disponível neste site. Mas te remeto a uma versão mais recente do mesmo:
http://www.pensataanimal.net/artigos/42-brunomull...
A maioria dos abolicionistas parte de uma concepção de direitos, não utilitarista, que é a vertente do Peter Singer, já um tanto superada muito em função de suas próprias contradições e limitações éticas.
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Excelente e muito coerente o texto, bem, como tudo que o Bruno escreve.
Gostei, em especial do trechinho:
"A verdade é que ser simpático nem sempre é uma qualidade. A simpatia pode ser também uma bela forma de não se comprometer: sob o manto do altruísmo e maturidade, ela pode esconder o egoísmo e o incontrolável desejo de ser aceito."
Ser "simpático" é muito conveniente… e realmente pode esconder egoísmo, incontrável desejo de ser aceito… é um disfarce.
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Não tem uma frase assim: “Que os seus atos sejam o seu discurso”, todas as palavras que já disse não fizeram o efeito do meu dia-a-dia faz com as pessoas. As pessoas precisam não de antipatia mas de informação. Não tem os estagios da verdade? Então é comum que as pessoas nao sejam receptivas aos novos habitos, ridicularizem etc. Este é o caminho e o futuro é vegano!
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