Porque Protetores de animais comem animais?
[►Enviar para um amigo]agosto 21, 2008 em Artigos por Fabio Chaves
Palestra proferida no 36 Congresso Vegetariano Mundial
Paula Brügger

Bióloga, Especialista em Hidroecologia, Mestre em Educação e Doutora em Ciências Sociais, Professora do Deptº de Ecologia e Zoologia da UFSC, Coordena o projeto de educação ambiental “Amigo Animal”. É ativa na defesa dos animais como voluntária da ONG “Sociedade Animal”. Foi, durante quatro anos membro do “Comissão de Ética no aUso de Animais” – (CEUA).
A história da nossa espécie – Homo sapiens -, sobre a Terra é marcada por uma progressiva ruptura entre nós e o entorno, como nos ensina Milton Santos. Essa afirmação, verdadeira sobretudo para as sociedades industriais, nos obriga a refletir, entre muitas outras questões, sobre o fato de estarmos nos distanciando cada vez mais dos processos produtivos que fabricam diversos itens e produtos que consumimos no nosso dia-a-dia. Isso significa que pouco sabemos sobre o custo ambiental, social, etc, da maior parte desses produtos. Por exemplo, para ter acesso à eletricidade basta tocar o interruptor, e para saborear um pedaço de carne, basta escolher um bom corte no supermercado. Mas o processo de produção de diversos produtos que consumimos quotidianamente pode ser bastante predatório em muitos sentidos.
Nossa dieta alimentar, por exemplo, pode ser geradora de grandes impactos sociais e ambientais, dependendo se ela é basicamente vegetariana ou carnívora (rica em proteína animal, em geral). As dietas essencialmente carnívoras provocam hoje gigantescos impactos sociais e ambientais como destruição de habitats e perdas de biodiversidade; consumo exacerbado de recursos naturais renováveis e não renováveis (como água, solo, petróleo); poluição; destruição de pequenas propriedades rurais e exclusão social; além de estar associada com o aumento de incidência de diversas doenças como as cardiovasculares, obesidade, câncer, etc. Todas essas razões seriam suficientes para abdicarmos de uma dieta rica em proteína animal, pois tal dieta é insustentável. Entretanto, a questão central deste grupo de trabalho é o sofrimento infligido aos animais que são criados e abatidos para consumo humano.Enfim,
Por que é tão comum protetores de animais comerem carne?
A resposta, me parece, está pelo menos em parte ligada a essa ruptura entre nós e o entorno. Embora possamos prescindir de carne e outras formas de proteína animal para garantir uma boa saúde, muitos protetores de animais ainda comem carne unicamente porque, de um lado, não têm que matar o animal com suas próprias mãos, e de outro, desconhecem todos os sofrimentos por que passam tais animais antes de chegar às suas mesas. Em outras palavras, vale a velha máxima: “o que os olhos não vêem, o coração não sente”.
A relação seres humanos-animais pode ser tratada sob inúmeros aspectos: tráfico de animais; alimentação rica em proteína animal; uso de animais em ensino e pesquisa; uso de animais em circos, rodeios, etc, animais de rua, e muitas outras. A questão dos animais de rua é sem dúvida um dos principais focos de atuação da maior parte das ONGS que têm como objetivo o amparo e a proteção dos animais, e é um problema muito mais visível, pois os animais abandonados estão sofrendo diante de nossos olhos. Esse problema é, entretanto, apenas a “ponta do iceberg”, quando se trata da relação entre nós e os animais.
Além dos inúmeros problemas sociais e ambientais antes apontados, cada vez que nos sentamos à mesa estamos compactuando, ou não, com a exploração e sofrimento de milhares de animais. Embora esse sofrimento não esteja diante de nossos olhos, a verdade é que diversos outros seres sencientes, isto é – capazes de experimentar prazer, dor e outras sensações -, passam suas breves vidas confinados em condições deploráveis para depois serem abatidos e nos servir de alimento. Porcos, frangos, bezerros, perus e muitos outros animais são brutalmente mutilados antes de virar comida: seus rabos e bicos são cortados ou queimados para evitar o canibalismo e/ou para que não possam escolher parte de seu alimento; são castrados sem anestesia; são transportados para os matadouros sem água ou alimento suportando temperaturas extremas, etc. O sofrimento pode ser tanto que em muitos casos – como o dos bezerros criados para produzir vitela -, o abate, ou seja a morte, é quase que uma redenção, já que marca o fim de uma vida absolutamente miserável. Há ainda muitas outras formas de sofrimento impostas a animais que não são criados em cativeiro como a separação entre mães e filhotes, a separação de rebanhos, as marcas com ferro em brasa, e outros sacrifícios que não levam em consideração os interesses dos animais, como argumenta o filósofo Peter Singer.
Mas será correto submetermos seres sencientes a todo esse sofrimento para deles tomamos carne, ovos, leite ? Serão os animais nossos companheiros de jornada na Terra, ou meros recursos para nos servir e atender nossos desejos hedonistas ? A triste realidade é que em nossa sociedade os animais estabulados e de granja deixam de ser seres vivos e se tornam meros objetos, no caso, meros containers de proteína. É patético pensar, por exemplo, que a idade em que porquinhos são abatidos, é a mesma época em que, em outras condições, esses mamíferos inteligentes estariam brincando animadamente, tanto quanto nossos cães e outros animais de estimação. De fato, o mesmo tratamento considerado “normal” ou “aceitável” para muitos animais que nos servem de alimento, é considerado cruel e suficiente para dar voz de prisão, quando aplicado aos nossos animais de estimação. O Decreto Lei 24.645/34, por exemplo, que estabelece medidas de Proteção aos animais, prevê como crime uma série de situações de sofrimento que ocorrem corriqueiramente com animais submetidos a processos de produção industrial, mas isso jamais impediu que tais sofrimentos fossem impostos aos animais.
Se tratamos cães e gatos com carinho e amor, mas não nos sensibilizamos com o sofrimento de outros animais, estamos sendo injustos.
Não somos mais caçadores-coletores e temos à nossa disposição uma ampla variedade de fontes de proteína que nos garantem uma alimentação balanceada. Portanto, pelo menos no que diz respeito à maior parte da população urbana do mundo, a carne e outras formas de proteína animal podem ser consideradas um luxo já que é possível prescindir de seu consumo.
O tratamento diferente que damos a cães e porcos, por exemplo, fere o princípio ético da igualdade, entendida como igual consideração de interesses. Ser passível de sofrimento é a característica que diferencia os seres que têm interesses – os quais deveríamos considerar -, dos que não os têm. Enfim, a condição de “senciente” é suficiente para que um ser vivo seja considerado dentro da esfera da igual consideração de interesses.





Excelente crítica da Paula! Mais uma vez ela deu um show! Sinto-me privilegiada de ter participado (já tem um tempo) de um curso de ética ambiental ministrado por ela! Sem dúvida, uma grande profissional e militante!
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Parabéns pela crítica! Infelizmente, o homem não deixa o orgulho de lado e pensa em todo o sofrimento que causa aos animais. Sou vegetariana ha 1 ano e 3 meses e tenho muito orgulho disso. Fiquei bem feliz em saber que existem pessoas como a Paula…que lutam de verdade por um ideal maravilhoso desses. Tem toda a força que precisar! Super beijo
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Paula,
E se o ser humano resolver perceber que é comível?
Afinal, pode ser uma boa fonte de proteina animal.
Que derivações você faria?
Parabéns
Abraço
Robledo
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Eles esquecem que o vegetarianismo, poderá deixa-los mais sensivéis.
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olha eu nem li mas pelo o titulo não é´o que eu pesquisei ta meu bem
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Concordo com a Ligia e com todos…
Com certeza ABSOLUTA e com um ALGO de inexplicável… nossa sensibilidade muda com o VEGANISMO.
Ficamos ALERTAS, sentimos prazeres muito profundos no contato com a natureza, VERDE, multicor das plantas.
A Natureza VERDE (mundo vegetal) é a própria transformação DA LUZ…
No sentido bioquímico…
no espiritual…
Estou escrevendo algo sobre o PAISAGISMO ALIMENTAR, movimento que seria legal ser levantado por vegs…
com axés a todos
claudinha
nutri vegana-poa-rs-brasil
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Sou Biologa tambem,e acho muito certo ser vegetariano,mais antes de ser uma defensora dos animais eu já era uma “carnivora”.
Me envergonho disso ,tento parar e não consigo é como se fosse uma droga.
O que faço nesse caso?
será que sou uma pessima protetora?
abraços a todos
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Oi, Gabriela, se vc me enviar seu e-mail, posso mandar uns materiais para vc repensar, materiais que uma amiga bióloga me mostrou…
É fácil, cada vez mais, tornar-se vegano.
O cuidado com a Vida é uma “entrega”, é uma meditação, é um PRAZER…
claudialulkin@gmail.com
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