Vegetarianismo: por que eu devo engolir essa?

por Rafael Bán Jacobsen

Há algum tempo, pediram-me um texto “curto e grosso” e em linguagem simples para divulgar a causa vegetariana em um jornal popular. Não sei por que, o texto nunca chegou a ser veiculado. Trago-o, então, para os meus fiéis leitores aqui do Vista-se. Divirtam-se!


Vegetarianismo: por que eu devo engolir essa?

Começo com as palavras do filósofo gaúcho Carlos Naconecy:

Há diversos modos pelos quais você pode se relacionar com os animais. Essa relação pode ser intermediada por um sofá, sobre o qual você e seu gato de estimação passam juntos os domingos à tarde. O que liga fisicamente você a um cão de companhia pode ser a coleira usada para puxar o animal pela calçada aos finais de semana. Ou mesmo as grades de uma jaula através das quais tentamos jogar comida a um urso no zoológico. Há várias outras possibilidades, mas em torno de 99% dos casos, a relação dos seres humanos com os animais no nosso planeta se dá por outra via: por meio de um garfo e de uma faca.

É a mais pura verdade. A esmagadora maioria dos animais que passam por nossas vidas surgem já mortos, nos supermercados ou diretamente em nossos pratos, e com eles temos uma relação muito breve, que se encerra quando cortamos seus corpos com garfos e facas, levamos a nossas bocas, trituramos com os dentes e, por fim, engolimos. As pessoas adoram comer carne. As pessoas comem muita carne, e cada vez mais. Um dos primeiros indícios de aumento na renda de uma população é o aumento do consumo de carne. Basta ganhar uns trocados a mais que a pessoa corre para o açougue mais próximo. Por que isso? Porque comer carne, no senso comum, é sinônimo de comer bem, é sinônimo de elegância, é um luxo. Mas será mesmo?

Comer bem é ingerir alimentos que sejam capazes de nutrir nossos corpos e manter ou melhorar nossa saúde. Pesquisas têm demonstrado que dietas vegetarianas podem proporcionar melhores condições para uma vida mais longa e saudável. Estatisticamente, é entre os consumidores de carne, ovos e laticínios que há maior incidência de males cardiovasculares, artrite, diabetes e osteoporose. A carne vermelha, em especial, é a segunda maior causa de câncer, perdendo apenas para o fumo. Em 1997, a ADA (Associação Dietética Americana) revisou os trabalhos científicos sobre o vegetarianismo e se posicionou: “O posicionamento da ADA é de que, quando planejada adequadamente, a dieta vegetariana é saudável, nutricionalmente adequada e resulta em benefícios à saúde e na prevenção e tratamento de certas doenças.” Essa adequação é descrita para todos os estágios da vida (infância, idade adulta, senilidade, gestação e amamentação). Será que estamos de fato comendo bem quando, em volta da churrasqueira, nos fartamos com costelas, picanhas, lombinhos e galetos?

Seja como for, a última palavra que poderia ser usada para definir o consumo de carne é “elegante”. A produção e o comércio de carne são inesgotáveis fontes de grosseria e brutalidade. A comparação dos horríveis espetáculos, sons e odores de um matadouro com a beleza e o perfume de uma horta ou pomar não deixa dúvidas quanto a isso. Todos animais que consumimos (bois, frangos, porcos) são tão sensíveis à dor e passíveis de sofrimento quanto nós ou quanto nossos animais de estimação. No entanto, na indústria do matadouro, são criados em privação de liberdade e mortos de forma cruel. Matar um animal para depois sangrá-lo, arrancar-lhe a pele e as vísceras e então engoli-lo pode ser muitas coisas, mas, por certo, não é nada elegante.

Além disso, o ato de comer carne está diretamente ligado com a poluição e a devastação do meio ambiente. Segundo um relatório recente da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), os animais criados para alimentação emitem mais gases perigosos ao meio ambiente do que o transporte, além de degradar o solo e a água. A expansão das pastagens é também um dos principais responsáveis pelo desmatamento de florestas, pois ocupa 70% das áreas desmatadas da Amazônia e, em boa parte do restante, é cultivada soja para produção de ração animal. Outros danos causados pela pecuária citados pela FAO são a erosão e compactação do solo e a perda de biodiversidade nativa. É ainda um dos principais poluentes das águas, criando zonas mortas em áreas costeiras, degradação dos recifes de coral, problemas de saúde humana, etc. Trocando em miúdos: a criação de animais para consumo humano não tem nada de luxo – gera muito lixo, isso sim!

Em um mundo que necessita, mais do que nunca, de saúde, de cuidados com a natureza e de paz, é importante que todos nós façamos nossa parte, mudando certos hábitos. Aprender a se relacionar com os animais de outras formas, e não através do garfo e da faca, é um ótimo começo.

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